E estava lá, eu, posicionada na zona de saque, olhos atentos da arquibancada, banco e adversárias. Meu treinador me fuzilando com os olhos, eu podia imaginar a bronca que ele ia me dar se eu errasse. Na rede, minha levantadora esquematizava todo o sistema do nosso jogo. Por instantes antes do apito, eu imaginava todo aquele povo me admirando por eu ser pequena e grande ao mesmo tempo. Eu era uma proeza. E eis que soa o apito, meu preparo, uma batida na bola no chão, a braço esticado com ela a minha frente e pronto! Jogava ela alto e com uns três passos eu voava. É, eu realmente voava. Saque viagem. Quando aprendi fui a melhor do meu grupo. 18 pontos seguidos, alguns aces, outras bolas estratégicas na linha. Pá! Toda aquela jogava rápida, as posições se ajeitando, eu atrás, na defesa, ia com tudo de encontro ao chão pra não deixar a gorduchinha cair. Quando eu já estava cansada, ou mesmo como tática, o saque era normal, sem o salto. Mas tinha uma marca minha: o arrastado do pé esquerdo, que me rediam sempre um par de tênis novo, já que eu não podia repor sempre o tênis esquerdo. Ponto nosso, o olhar de "não fez mais que sua obrigação" do técnico. Ainda lembro meus amigos gritando: "ão ão ão a May é seleção" Que bobagem, mas eu amava aquilo. Me sentia uma Virna, uma grande jogadora. Quando eu não conseguia pegar, o olhar era de "sua idiota". É, ouvi muitos xingamentos, mas aquilo me motivava. Se ele ficasse calado, era elogio.
Mas a parte que eu mais gostava era o ataque. "Arh!" era isso que eu gritava quando subia pra bater com toda minha força na bola. A sensação de parar no ar foram poucas, mas eu me sentia dessa vez um Giba. Sair detrás e atacar, marcar um ponto, dar uma medalha na adversária, eu tão pequenininha. As vezes riam de mim quando falavam da minha posição: meio de rede. HAHAHAHA, só me restava pintar duas listras pretas no rosto e partir pra batalha. Certo que a rede não era a profissonal, ai até eu riria, mas não era qualquer rede, era alta.. Contudo, muito prazer, eu era a meio de rede, que atacava e bloqueava com muito esforço, com meus bracinhos curtinhos. E a felicidade quando eu impedia a bola passar era tamanha que eu gritava! Eu via que eu surpreendia. Agora sim, tava mostrando que não podiam duvidar do meu tamanho. Me lembro como se fosse hoje e por muito tempo aquilo era de assustar meu sono, aquele grito ensurdecedor do treinador: "bloqueia! bloqueia! bloqueia!" durante 2 horas. Ele sabia que eu tinha potencial para ser meio de rede, meus ataques eram bons, mas e o bloqueio? Eu sentia que a cada grito dele eu crescia 1/2cm pq depois de longos minutos nesse mesmo grito, eu já conseguia encostrar a pontinha do dedo enrolado no esparadrapo na bola. Quando finalmente eu bati a mão nela, o suor escorreu por entre os seios, e pela minha coluna. Um suor frio. Pronto! Agora se eu não acertar num jogo, esse grito vai me deixar louca. E a emoção de estar no jogo e bloquear era tamanha. Toda vez que subia, eu lembrava daquela voz dele, infernizando meus 1,57 de altura.Em pensar, comecei a jogar na escolinha de Vôley do colégio, me interessei e fui jogar numa escolinha maior, depois seleção, jogos fora, no exterior, que eu nunca pude ir, até porque eu sabia que não ia continuar no voley por muito tempo... Fora os rachas que tinha com a galera. Meus maiores parceiros de jogo foram a Jéssica, que esteve comigo na escolinha desde sempre, a Bruna, que ao meu lado enfrentou muitos jogos no colégio e o Igor Clark, que ainda hoje, raramente, bate uma bolinha comigo. Mas bons tempos eram, quando íamos para um "torneio" aqui perto de casa. Éramos sempre May e Igor, a dupla dinâmica. Eu o admirava tanto. Ele me admirava tanto. Dava certo. Unidos por amor a um esporte... que saudade de outrora de minha vida! Quando terminei meu ensino médio que sai do colégio, fiquei sabendo que haviam várias pessoas que iam para a Educação Física apenas para me ver jogar. Sabem o que é isso? Eu tinha fãs! Lembro de um garoto, Ramon, que na Educação Física se aproximou de mim sempre me perguntando algo sobre voley... depois de um tempo disse que me achava muito bossal, mas que sempre ia me ver jogar até que decidiu que queria jogar voley e queria que eu o ensinasse. Aquilo foi AWESOME!
Vocês podem estar se perguntando: "porque parou de jogar?" A resposta verdadeira eu também não sei. Comecei o 3° ano na intenção de estudar e queria me dedicar. Também sentia umas pontadas no coração, justo na época em que muitos jogadores de futebol faleceram por conta de dores assim... foi um misto de medo e cansaço. Talvez fosse minha hora de deixar as quadras, no anominato mesmo. "Anominato" já que eu tinha alguns fãs. Da escolinha em que eu jogava, eu era a mais nova e a menor em altura. E era sempre a capitã. Por mérito. Nada do que disse aqui foi me gabando, falei porque muitas pessoas me diziam o quanto eu era boa jogadora, eu nunca achei que fosse tanto. Me achava esforçada. Gostava que me olhassem e não desse nada por mim até me verem jogar. Sinto muita saudade, mas enferrujei... o vôley de 7 anos me rendeu dores no joelho, um dedo desmetido que dói até hoje, algumas medalhas e muitas amizades... Pra mim, foi o amor mais puro e verdadeiro, uma relação ímpar, uma terapia, uma satisfação. Eu era a May, meio de rede, número 5. O vôley, é o melhor, o que exige esforço, o número 10 #nota10.
Deixo vocês aqui, com o maior post que já escrevi até hoje, mas com muita dedicação e nostalgia.
Beijo à todos e me twittem ;*



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ResponderExcluirBem...
ResponderExcluirPost bem legal, tanto que vou pegar a ideia e escrever no "Osvaldrums" sobre o meu esporte favorito.
Irônico o fato de tu ter sido meio (ou meia? Que cor era? Azul?) de rede. Hahahahaha!
Mas, de uma forma geral, belo texto. Tu tá escrevendo gostoso. Por conta disso, vou dar o gás na minha próxima postagem. Lembrando que não estou com inveja, pelo contrário, acho massa, fico feliz de saber que minha "pupila" está realizando um ótimo trabalho nessa arte de escrever.
Beijo.